Projeto Adeola – Princesas e Guerreiras

Quem são as pessoas que fazem e fizeram parte da construção de Sorocaba? Pensando nas vidas inspiradoras do passado e do presente, nasce o projeto Construtores de Histórias, um presente da CRB Construtora para Sorocaba em seu aniversário de 367 anos. Nos próximos dias, vamos compartilhar com você relatos e experiências de pessoas responsáveis por tornar Sorocaba uma cidade plural e única.

Para inaugurar, nossas primeiras entrevistadas são Denise e Raísa, sorocabanas que desenvolvem um projeto de empoderamento infanto-juvenil através da contação de histórias. Vamos conhecê-las?

“Duas amigas, Denise e Raísa, estavam estudando quando encontraram, no livro de História, um par de brincos mágicos. Muito curiosas, correm para o espelho, cada uma com um brinco. Ao colocá-los nas orelhas, um portal se abre, revelando um reino onde elas se deparam com a rainha Nzinga e lá são coroadas, Funji e Kambo.”

Assim se inicia a narrativa que as educomunicadoras e pesquisadoras da cultura afro-diaspórica, Denise Teófilo e Raísa Carvalho, desenvolvem com o projeto Adeola – Princesas e Guerreiras. Adeola, que em iorubá significa “coroa de riqueza”, tem o objetivo de “afrobetizar” crianças de 3 a 16 anos, a partir de histórias de rainhas e princesas negras, do continente africano e do Brasil.

Denise (à esquerda) e Raísa (à direita) criadoras do projeto Adeola

O projeto nasceu em 2015, no Centro Cultural Quilombinho, organização não-governamental localizada em Sorocaba, e que é referência no desenvolvimento de atividades para crianças e jovens, com foco no resgate das tradições afro-brasileiras.

Em 2016, o trabalho recebeu o Prêmio Antonieta de Barros para Jovens Comunicadores Negros e Negras, promovido pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Ministério da Justiça e Cidadania (SEPPIR/MJC), o que auxiliou no processo de expansão das atividades para outras cidades. Desde então, o projeto percorreu o Brasil, com apresentações em diversos estados, como a Bahia, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e São Paulo.

Créditos: Luane Chinaide

É na história da rainha Nzinga, de Ndongo (atual Angola), e de suas irmãs, que as amigas encontram as personagens que revivem para falar de princesas e guerreiras em contexto de diáspora.

Nzinga foi uma importante rainha do século XVII, extremamente combativa diante do reino português e da colonização escravagista. Treinada desde menina em estratégias de guerra, foi uma importante líder na resistência angolana contra a escravização. Conta-se que, após uma batalha contra os portugueses, suas irmãs, Kambo e Funji, foram sequestradas e enviadas para Luanda, uma manobra de Portugal, que esperava construir um reino fantoche com as irmãs.

Na história real, o destino das irmãs é desconhecido. “Achamos importante usar essas personagens e ressignificar a história delas”, diz Raísa. Como o paradeiro de Funji e Kambo era desconhecido, Denise reflete sobre a possibilidade de elas terem sido vendidas como escravas e que não se descarta a possibilidade de terem vindo para o Brasil, como tantas outras Funjis e Kambos.

“Essas Funjis e Kambos que vieram para cá são nossas ancestrais, e Sorocaba também tem isso no seu histórico, apesar de ser pouco lembrado. Além disso, a gente [também] vive várias histórias de Nzingas na contemporaneidade, a gente tem a Marielle Franco, a Beatriz Nascimento, a Lélia Gonzales, inclusive a própria Rosângela Alves”, pontua Denise.

As idealizadoras do projeto relembram a influência que Rosângela Alves, fundadora do Quilombinho e primeira presidente do Conselho Municipal do Negro da cidade de Sorocaba, teve para o Adeola e a sua importância na construção da história sorocabana, através da educação pensada enquanto prática antirracista. Além do projeto infanto-juvenil, Denise e Raísa desenvolvem formações para professores, com o objetivo de construir comunidades escolares com competências para trabalhar questões etnico-raciais em educação de forma criativa.

Créditos: Evelson de Freitas/BOL

Nas apresentações, a musicalidade e a contação de histórias se combinam, através de instrumentos como o berimbau, utilizado na capoeira, e a mbira, também conhecida como kalimba, que guarda o som das estrelas.

Para navegar entre as diferentes histórias, Funji e Kambo buscam, no reflexo do espelho e das águas, portais mágicos que as conectam a diferentes princesas e guerreiras afro-brasileiras e africanas, escolhendo para cada grupo personagens que gerem identificação e pertencimento. Ao final da performance, cada criança é coroada com um turbante que ela mesma confecciona, sua Adeola, e se torna rei ou rainha de seu próprio reino.

4 replies on “Projeto Adeola – Princesas e Guerreiras”

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *